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13-05-2008 - 00:01h

Uma arquitecta precária que decidiu «bater o pé»

Margarida tem 27 anos, mora com os pais e já recebeu várias propostas de trabalho «indecentes». Ainda não teve um emprego «a sério».

Por: Joana Ramos Simõesemailmais artigos deste autor
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Margarida licenciou-se em arquitectura numa universidade privada, em 2004. Para ser uma «arquitecta a sério» faltava-lhe o estágio, que optou por fazer na Holanda, onde, durante um ano, recebeu 500 euros por mês.

Regressada a Portugal dedicou-se a elaborar o relatório de estágio e a procurar um emprego, mas só conseguiu arranjar «trabalho». «Estive a fazer maquetas para um amigo que tem um atelier», contou Margarida ao PortugalDiário. Por não ser um emprego a sério, e o por ser um amigo, recebeu o pagamento em dinheiro.

Pouco tempo depois arranjou outro trabalho. A ideia inicial era fazer duas maquetas para um arquitecto, mas o «empregador» acabou por propor-lhe que ficasse no atelier mais tempo, recorrendo a um estágio profissional do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Num estágio profissional do IEFP, o estagiário recebe o equivalente a dois salários mínimos (o Instituto paga um, o «empregador» outro), mas a ideia do arquitecto era outra.

«A proposta dele era que eu recebesse o salário pago pelo IEFP, mais cinquenta euros, pagos por ele. Isto tudo a recibos verdes», contou Margarida. «Achei por bem recusar a proposta», acrescentou.

Um salário de 225 euros mensais

Nos dois meses que passou no atelier do arquitecto a fazer as maquetas, «com um horário 'normal' de segunda a sexta-feira», recebeu 450 euros, 225 em cada mês.

Depois deste trabalho precário, Margarida saltou para outro. Prometeram-lhe seis euros por hora, pagos a recibos verdes, mas acabaram por ser 3,5.

Entretanto surgiu a hipótese de trabalhar como arquitecta numa imobiliária, a ganhar 800 euros limpos e com direito a contrato. Mas a promessa não passou disso mesmo. «Estive sete meses a receber os 800 euros em dinheiro, sem que voltassem a falar-me no contrato», disse.

«O que se passou comigo ali era recorrente. Trabalhavam lá pessoas há três anos sem contrato, sem recibos, sem nada. Se não tivesse o apoio dos meus pais, se tivesse contas para pagar, filhos, se calhar tinha ficado, mas assim não», contou num tom de revolta.

«Há alturas desesperantes»

Em Novembro do ano passado decidiu bater o pé. Nessa altura voltou à carga. Desde então já perdeu a conta à quantidade de currículos que enviou. Foi chamada para meia dúzia de entrevistas, «apenas». «Há alturas desesperantes. Nem sequer respondem ao e-mail ou à carta, nem que seja para dizer que não precisam de mais trabalhadores», disse.

Neste momento está à espera de resposta de um sítio, onde, caso seja escolhida, irá ser paga a recibos verdes, com a promessa de passado uns meses passar a contrato.

«Já tinha noção que não seria fácil, mas nunca pensei que a exploração fosse tão grande», disse. «É um bocado desesperante, mas é preciso ter calma. Há alturas em que fico desanimada, não me apetece enviar mais currículos, não me apetece fazer nada. Não me apetece sequer sair de casa. Mas há outras em que volto a insistir», continuou.

Margarida tem noção que é uma privilegiada. «Estou nesta situação porque tenho apoio dos meus pais. Se não tivesse se calhar teria que ter aceitado algumas das propostas que já tive».

«Dizem-me que vivo num mundo cor-de-rosa»

«Não tendo que me sujeitar, acho que devo bater o pé. Por muito que seja criticada. Se tenho quem me ajude acho que devo sempre bater o pé».

«Dizem-me que vivo num mundo cor-de-rosa, eu acho que não. Acho que tenho de lutar pelos meus direitos», disse Margarida, que neste momento vive o dia-a-dia, sem perspectivas de futuro. «O nosso presente é assim».

Além de bater o pé às propostas «indecentes» que lhe são feitas, Margarida gostaria de denunciar as situações com que já se deparou, mas a perspectiva de poder vir a arranjar um emprego fá-la pensar duas vezes.

Voltar a sair de Portugal é uma ideia que passa pela cabeça de Margarida. Como muitos outros jovens portugueses «se a coisa não funcionar», ela volta a emigrar, embora gostasse de continuar no país.


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Comentários -
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Talvez eu possa ajudar| 2008-06-02 / 10:37 | Por: CC
8
Ola, e como cmpreendo a sua situação, no entanto, queria perguntar-lhe se estaria disposta a sair da sua cidade que nao sei qual é para uma outra, pois e que a empresa anda a procura de um arquitecto/ arquitecta que saiba trabalhar com autocad, se estiver interessada contacte trabalho6000@gmail.com
Emigra| 2008-05-14 / 19:59 | Por: Lausanne
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Eu estou na Suiça faz 2 anos.Inicialmente fiz trabalho que me surgiu em obra, aprendi as tecnicas, desenvolvi a lingua. Meses depois passei procurei melhor e consegui um estagio de 3 semanas numa empresa de agencement. Consegui atraves desse estagio, ir para um gabinete de engenharia. Estive a substituir um engenheiro que cumpria serviço militar. 5 semanas depois ele voltou, e eu voltei a procurar emprego que surgiu com um telefonema repentino da empresa aonde tinha estagiado. Trabalhei 9 anos em Portugal, tive empresa depressa desisti, trabalhei com varias empresas durante anos a recibos verde. Nunca tinha tido a sensação de receber subsidio de ferias ou subsidio de Natal. Sinto-me agora realizado. Formei-me engenharia civil em Portugal, ensinei milhares de pessoas em Portugal, mas um dia olhei para a vida que passava, às vezes 1 e 2 anos para receber, mas tinha de pagar os impostos dos recibos, porque os tinha passado, a segurança social para nada, as minhas despesas de vida. Tinha de arriscar sair, fosse para aqui fosse para onde fosse,pior não podia ser. Hoje vivo, ponho dinheiro de parte, mando para os meus pais, vivo num país organizado, limpo, verde, educado, prospero e protegido.
(aqui nunca nenhum patrão deixou de pagar tudo,a horas e todos os direitos - sentem um orgulho especial em faze-lo)
Escrevo so para te dar força, imagino o que deves sentir, mas não continues ai, vem crescer para fora de Portugal. Voltarás para passar férias.
Uma palavrinha !| 2008-05-13 / 17:30 | Por: Antonio Malheiro
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O conselho que lhe dão ( D. Luiza) não é bom!
Fique e lute! Sou emigrante há 45 anos no país que escolhi, a Alemanha, sinto-me à vontade porém serei sempre um estrangeiro e o nome que tenho e me orgulho será sempre para eles o meu estigma.
Você tem um curso superior, talvez o tenha tirado por ter gostado do tema ou talvez porque à aquilo que gostava de aprender não lhe foi possível aceder. Tornou-se uma vitima duma propaganda que induz os jovens a acreditar que ter um curso, nem que seja de engenheiro sanitário, é ter exito.
Levados pela postura de que ter um titulo de doutor, mesmo sem a tese de doutoramento, muitos jovens enganaram-se e foram enganados.
As escolas comerciais e industriais que formavam a classe média desapareceram. Estou firmemente convicto que muitos jovens que tivessem, ao fim de 9 anos escolares, entrado para essas escolas teriam certamente um futuro mais risonho.
Não se pode apelidar um desempregado de "calão", porque os "calões" têm, em geral bom "tacho".
Desejo-lhe sorte!

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